Então ele mandou pôr dois peixes e cinco pães em cima de uma grande
mesa. Ordenou que estes se cobrissem com uma toalha branca e pediu a
todos que se afastassem. De seguida ele olhou para o céu através do
telhado em ruínas e pediu ao pai, pelo buraco de uma telha partida,
que procedesse ao milagre algébrico que fizesse de um peixe vários
peixes e de um pão outros pães. Em tudo isto não é certo que de alguns
pães não tenha ele feito peixes e de algum peixe não tenham resultado
pães. A toalha cobriu os segredos do processo e as gentes raramente
são sensíveis às subtilezas quando de comer se trata.
Então ele mandou afastar a toalha e os assistentes assim procederam,
sem nunca descurarem certos modos solenes próprios de tais funções.
Ele arregalou muito os olhos, abriu os braços e franziu a testa numa
surpresa ensaiada, enquanto mostrava à sua frente uma enorme
quantidade de pães e peixes em duas pilhas ordenadas.
As gentes olharam-se em espanto premeditado e logo começaram a bater
palmas e a dar vivas aclamando a aberração gastronómica. Ele
continuava de braços e olhos esgargalados e as gentes gritavam mais e
aplaudiam com mais força e davam pulos nervosos com medo de o não
contentarem. Depois encheram suas bocas de pão e pedaços de peixe cru
dizendo que era bom para em seguida fugirem para um canto e vomitarem
sem que ele os visse. Foi assim até chegar a noite e não restarem pães
nem peixes e haver grande fastio e todos terem grande vontade de
voltar a casa e esquecer quanto pudesse vir a ser esquecido. Por todo
o povoado se mascaram toda a noite ervas e mistelas com o malogrado
intuito de combater as repugnâncias dos palatos.
Ele partiu pela manhã sorrindo de alto aos rostos agoniados e insones
que haviam querido certificar-se do saimento, com uma mão o entregavam
ao pai em falsos acenos e com a outra seguravam fresquíssimas folhas
de hortelã que iam mastigando pelos intervalos dos sorrisos amarelos.
A partir desse dia todos os tectos da aldeia foram remendados. As
cabras continuaram a ser criadas como até aí e algumas eram
sacrificadas a deuses distantes. Os forasteiros eram tratados a paus e
pedras e nenhum se atreveu a voltar. Aos homens que não pagavam as
suas dívidas e às mulheres infiéis, era deixado pela manhã um monte de
peixe às suas portas e era-lhes reservada uma injúria que as gerações
vindouras não conseguirão compreender.
Nuno Camarneiro
(Nuno Camarneiro é autor de vários pequenos contos publicados na
revista minguante: www.minguante.com)
"ATÉ BREVE...
Mãe...quantos sorrisos não vi desabrochar nos teus olhinhos!...
No teu rosto delicado, nas tuas faces tudo era paz, harmonia e felicidade, aparência equilibrada que fazias transparecer para o exterior, no sentido de colmatar as privações que na tua vida diariamente iam surgindo. Eras uma pobre senhora, rica de amor e sentimentos.
Hoje, adulto, um pensante crónico e austero, tudo faço para me anichar, em meus sonhos, no teu mundo interno, no teu consciente, para poder usufruir ou reviver todos os momentos belos e sublimes que soubemos partilhar na curta vida que passamos em comum, quem sabe se muitas vezes encobrindo alguma dor e muito sofrimento...
Como me apetecia hoje poder gatinhar entre as lágrimas que choraste de alegria, no momento em que de ti me separaram, naquele momento em que nos teus braços de veludo te depositaram a carne da tua carne, a vida da tua vida...
Quantas lágrimas não correram do teu rosto quando me beijaste pela primeira vez, quando me deste o alimento que deixaste extrair do teu peito para eu não definhar ou secar neste caminho sinuoso em que fui lançado...
Tudo isto o fizeste com toda a entrega esquecendo as dores que ainda tinhas pelo esforço a que tiveste de sujeitar para me dares o privilégio de ver um mundo diferente...
E, assim, me alimentaste e protegeste por longos e variados meses, até começar a gatinhar, a tentar-me enquadrar num mundo novo. Os teus cuidados, ao entrar nesta nova fase, desdobraram-se faca às minhas naturais traquinices e rebeldias contínuas, próprias daquela idade.
As lágrimas que te fiz verter constituem hoje o pilar da minha vida, já que as mantenho guardadas no meu consciente para, quando precisas, me abrirem o caminho para poder trilhar com segurança e justiça.
Sei, ainda, que me perdoaste todas as diabruras e todas as leviandades.
Sei que, com tuas lágrimas me desbravaste o caminho que hoje trilho, tornando-me um cidadão digno, fiel ao teu quase celestial exemplo, ao teu amor e aos ensinamentos que superiormente me foste dando, ao longo da tua curta vida...
Mas Deus chamou-te porque tiveste um filho quye te abandonou quando mais tu dele precisava, partindo à aventura, para terras longínquas e desconhecidas...
Hoje, embora estejas lá muito longe, para lá do Além, sabes bem que te amei e amo, que te tenho bem presente, pois continuas a ser parte do meu ser, da minha carne que me arrebataram.
Jamais te esquecerei...jamais sairás do meu pensamento porque tenho a tua imagem profundamente cravada no meu coração. Só espero que um dia, minha alma do corpo libertada,te venha a encontrar num lugar sacroi e venerado. É este o meio sonho augusto de eterno amor.
Até breve mãe...
(PROSA é autor de muitas poesias e vários artigos escritos no silêncio da noite e nunca foram publicados. Todos os trabalhos,quase diários,são para mim, estados de alma, hinos de amor e ternura para com o meu semelhante, o meu próximo, embora desconhecido...)
Muito forte. Parabéns!